conto
Ele foi visto, pela primeira vez, vagando na Vila de São Francisco do Capivara, Curato da Freguesia de Santa Rita da Meia-Pataca, vindo das bandas do distrito de Cisneiros, pelo caminho que cruza o rio Pomba. Uma figura esquisita; alto, muito branco, pálido, olhos claros, cabelos lisos em desalinho, caindo sobre os ombros e o rosto. Era uma espécie da figura de Jesus Cristo como as estampadas nos santinhos espalhados pelos padres nas igrejas e capelas. Tomou como sua moradia um depósito de materiais de construção existente no fim da Rua de Cima que se conhecia ali como Caixa de Fósforos. Aquele depósito pertencia a um comerciante muito popular na Vila, Seu Chico de Oliveira. O negociante branco, filho de imigrantes portugueses, baixinho e magro, vestia-se sempre de terno cáqui e gostava de usar gravatas coloridas e botas de couro avermelhado. Sobre a cabeça sempre um velho chapéu de palhinha; tinha então por volta de uns sessenta anos e estava sempre a mascar fumo num canto da boca. O comerciante de início quis expulsar o tipo dali; depois, apiedou-se dele e o deixou ficar. O homem estranho foi alvo da curiosidade da molecada. Os garotos mais afoitos se acercavam dele e indagavam seu nome. Ele não respondia; metia medo aos meninos com aquele olhar fixo de azul profundo. O assédio o irritava e, sem palavras, ameaçava correr em direção a eles, arrastando no chão os pés imensos empoeirados e os trapos de sua vestimenta pobre. Os garotos saíam correndo. Até hoje não se sabe como surgiu um nome para o estranho: os meninos começaram a gritar:
" Fião... Fião óia o Fião...”
talvez fosse até pela sua sonoridade, pois nunca se descobriu outro motivo. Toda Vila passou a referir-se a ele pelo nome de Fião. Corriam, então, os anos 30 do século passado, tempo em que a Vila do Capivara ainda guardava sinais de riqueza vindos da cultura cafeeira do século XIX. Remanesciam os casarões no Centro, as sedes, as tulhas e os pátios de seca do café nas velhas fazendas decadentes. Iniciava-se a época da mineração e aquelas tulhas e casas vieram a ser ocupadas pelos mineradores, vindos de vários lugares em busca do ouro. As “vendas”, se multiplicando. Vendiam-se, além da cachaça e da comida, enxadas, enxadões, bateias e tudo o mais que o ouro de aluvião precisava para sua exploração nas vargens do fundo do vale. Seu Chico de Oliveira tornara-se o comerciante mais importante do lugar e a Caixa de Fósforos se abarrotava de mercadoria.
O ouro era bateado nos córregos e alagadiços até a divisa com o Estado Rio. O Fião mal se acomodava num canto do depósito. Seu rosto tristonho, seus olhos enormes e azuis se fixavam nas pessoas; assim se comunicava. Dormia na Caixa de Fósforos, mas circulava entre aquela gente forasteira que o alimentava; sempre silencioso. Naquele tempo em que as horas pareciam correr vagarosas e os dias e noites longos, os meninos eram atraídos pelos tipos estranhos que surgiam na Vila. O Fião, coitado, sofria com a gritaria dos moleques. Tornava-se agressivo, depois se acalmava e esboçava um sorriso tristonho.
Nas casas da Vila do Capivara, em sua maioria pobre, as portas não tinham chaves, eram cerradas por tramelas e, em geral, em folhas cortadas horizontalmente pelo meio; eram portas e janelas ao mesmo tempo. As trancas, travessões de madeira, eram colocadas apenas à noite. Quase todas elas davam diretamente para as ruas de terra batida e deixavam ver o interior. O Fião tinha o costume de empurrar as portas, girar as tramelas, abrir e acotovelar-se nas folhas de baixo e ali ficar; os olhos arregalados para dentro da casa. Quando alguém se aproximava, vindo do interior da moradia, assustando-se com aquele vulto, o Fião se afastava lentamente, balançando a cabeleira loura. Algumas pessoas juravam que ouviam a sua voz rouquenha, recitando a “Ave-Maria” que interrompia quando se aproximavam. Nunca se soube ao certo se de fato recitava a oração. . Virou rotina: a molecada não podia ver o homem a caminhar naquele passo lento e claudicante e lá vinha o coro:
"Fião...Fião óia o Fião..".
Ele ameaçava atirar algo invisível em suas mãos, ensaiava correr e, afinal, sorria triste pelos cantos da boca. Vislumbravam-se nos olhos profundos do Fião um reflexo de vida passada e uma tristeza aguda que seu rosto branco deixava transparecer. Fazia lembrar uma estação da paixão de Cristo com o mestre caído sob a cruz, mostrando a dor e a agonia de quem vai morrer.
O trem de ferro passava na Vila, todos os dias, indo para a Capital pelas 9 horas da manhã e vinha de lá, indo para Carangola, por volta das 4 horas da tarde. Na vila embarcavam-se, ainda, algumas sacas de café de fazendeiros, que persistiam inconformados com a nova era, e leite em latões, colhido nas fazendas que passaram à pecuária, um tanto inadequada, naqueles pastos ralos e montanhosos. O trem era, então, a principal via de saída e entrada da Vila, pois as estradas de terra eram precárias e os veículos motorizados raros por ali. Um belo dia, em que num lado do céu havia um sol brilhante e no outro moviam-se nuvens prenhes ameaçando chuvas, o trem da manhã chegou na Vila com um pequeno atraso. Desembarque e embarque. Da primeira classe, a última da composição, desceu uma mulher, conduzindo dois meninos e duas pequenas trouxas. O maior teria uns nove anos, o menor uns sete. A mulher levou-os até um banco de madeira na plataforma, os fez sentar com as duas trouxinhas ao lado, beijou a face de cada um e voltou ao trem que em seguida partiu com ela. Os meninos ficaram ali; estavam bem vestidinhos. Vendo o trem se afastar se puseram a choramingar. A estação se esvaziou e o Agente da estrada, Seu Tolentino de Almeida, homem bom e muito considerado no lugar, notou os dois meninos e deles se acercou. O Agente ficou aturdido; não sabia o que fazer. Nem conseguira gravar a figura da mulher que os deixara, pois estava atarefado com o embarque das encomendas e o expediente do correio.
A chuva prevaleceu, gotas grossas começaram a cair sobre a plataforma; era uma ligeira tempestade de verão. Tolentino tratou de se abrigar com os meninos na sala da gerência. O dia ia pelo meio e, após uma meia hora, a chuva foi se amainando. O sol brilhou e rompeu as nuvens já esbranquiçadas se refletindo nas poças d`água no chão. Tolentino se lembrou de abrir as trouxas dos meninos; na do maior, além de roupinhas, havia um papel escrito, espécie de bilhete. O Agente o leu ansioso:
“Quem encontrar estes meninos, encaminhe-os ao pai. Ele veio para essa Vila do Capivara;. seu nome é Fábio. Vendo-os: ele os reconhecerá. Sumiu de casa, após a mãe deles. Os meninos ficaram expostos”.
O Agente, terminado seu expediente, de tardinha, tratou de encaminhar os garotos para o Dispensário de São Vicente, no Alto da Igreja. Depois, naturalmente, ia comunicar ao Juiz, Dr. Columbano, sobre todo o acontecido. Os meninos dormiram ali a sua primeira noite na Vila, após choramingar por horas. De manhã, logo que entrou no Dispensário e encarou os meninos, a Da. Ercília, mulher do prefeito Seu Antonino Barroso, que prestava ali muita caridade, foi logo dizendo: - “Oh gente! este menino -- apontando para o mais velho-- é a cara do Fião. Vamos levar os moleques lá na Caixa de Fósforos”. Dito e feito. Após alimentá-los devidamente, com eles se dirigiram ao depósito do Seu Chico de Oliveira. Fião lá não estava, mas era fácil encontrá-lo caminhando na vila ou debruçado em alguma janela. Seguiram pela Rua de Cima, desceram a Ladeira e na esquina da Rua do Dó avistaram o Fião que vinha andando com aqueles passos trôpegos, projetando a figura de Jesus Cristo de almanaque religioso. Aproximando-se, os meninos se soltaram das mãos de Da. Ercília e correram em direção ao Fião, gritando: “pai...pai...” Agarraram-se nas pernas do homem alto e esguio. O Fião os olhou fixamente como se estivesse fazendo um esforço para compreender o que se passava. A mulher do Prefeito observava. Era hora em que os estudantes, todos meninos, saíam do Grupo Escolar. Aquele quadro os espantou. -- E o Fião tinha filhos? se indagaram; e aos poucos começou o coro :
“Ah... o Fião, óia os fiotes do Fião”.
Os olhos muito azuis do Fião estavam molhados de lágrimas e então se ergueram como a contemplar algo invisível, ao longe. A expressão do seu rosto revelava que o homem buscava no recôndito de seus neurônios uma conexão com a realidade que lhe escapava. E os colegiais, subindo a ladeira, em frente, indiferentes gritavam:
“Ah.. o Fião!, óia os fiotes do Fião...”
Desvendada a origem dos meninos, se tornou necessário cuidar deles. O homem estava irremediavelmente alienado, ficou evidente. Devia ter sofrido algum golpe; algum desgosto muito grande; coisa que lhe cortou a voz e o fez perder contato imediato com a realidade. Fião reconhecera os filhos como sua cria, um sentimento instintivo; apenas isto.
Da. Ercília levou os meninos de volta ao Dispensário e cuidou de arranjar alguém para ficar com eles ou, quem sabe, adotá-los. A alma caridosa apareceu logo. Nem mais nem menos que o velho Chico de Oliveira. Levou-os com ele e os entregou a sua mulher Da. Cacilda. Os dois filhos do casal de Chico, adultos, já não residiam na Vila, haviam se casado e ido para a Capital. Depressa, muito depressa os meninos se afeiçoaram aos novos pais que passaram a tratá-los como legítimos. O Fião passou a ser olhado de um modo diferente; passara a ser um enigma a decifrar e, apesar de sua presença estranha, tornou-se parte da vida da Vila do Capivara.
Num dia de verão, o sol pôs fora sua cara bem cedo; ali pelas 8 da manhã já brilhava intensamente, acentuando o verde das folhas das árvores, os espelhos de grama e iluminando um profundo céu azul com poucos fiapos de nuvens brancas. Era um sábado. Cortando aquele silêncio costumeiro, ouviu-se o ruído do motor de um veículo, subindo a Ladeira; um furgão cinza, formato de ambulância, com janelinhas gradeadas. Nas laterais da cabine vinha escrito:
Hospital e Manicômio judiciário de Barbacena.
Ao volante um mulato alto e, a seu lado, um baixote de rosto avermelhado e cabelos ruivos; os dois vestidos de branco. Parado o carro à porta do Seu Antonino, o chofer tocou a campainha da casa. O baixinho também desceu do veículo. Vindo o prefeito ao encontro dos dois, no jardim, o homem ruivo se apresentou como médico psiquiatra e vinha à Vila para buscar um alienado que se soube estar vagando por aquela região. O Prefeito de logo se lembrou do Fião e ele que era também um homem bom e sentimental: perturbou-se. – Entregar o Fião? se indagou intimamente; ele já fazia parte da vida da Vila. Tentou convencer ao médico de deixá-lo ali, mas não conseguiu. Saíram os três no auto em busca do Sr. Fábio Cidreira; este era o nome do Fião. Não precisaram ir longe: lá vinha o homem na Rua de Cima em direção à Ladeira, inconsciente, ao encontro dos que lhe buscavam. O andar trôpego, balançando a vasta cabeleira, os pés descalços, ele lembrava, ainda mais naquela hora, a figura de Cristo da folhinha da irmandade do Sagrado Coração. A presença da ambulância e aquele movimento no topo da Ladeira, junto à casa do prefeito, colocou em alvoroço a pequena Vila do Capivara. O mulato que o dirigia parou o carro perto do Fião e se encarregou de abordá-lo. O homem apenas arregalou os imensos olhos azuis e não opôs resistência. Foi guiado mansamente até a porta traseira da ambulância por onde entrou no veículo. Despediram-se do prefeito. O carro fez a volta e se pôs a descer lentamente a Ladeira. Parecia que naquele momento toda a Vila estava presente. Era gente de todos os cantos: do Santo Antônio, da Rua do Sapo, do Centro, até as meninas livres do Mato Dentro estavam ali. Foram todos acompanhando o furgão que, ia vagarosamente.. Passou depois pela esquina da Rua Direita, se encaminhou para praça da Prefeitura e foi tomando o rumo da estrada de Cisneiros para deixar a Vila. O Fião, com a sua cara sagrada, espremida na grade, espichava os enormes olhos azuis como que se despedindo do lugar. De repente, a molecada se colocou à frente do veículo que foi obrigado a frear. Ouviu-se pela última vez o coro:
“ Ah...Fião ! Fião óia o Fião.. adeus Fião...”
Algumas das muitas pessoas que ali estavam naquele dia juravam que o viram acenar um adeus; outros diziam que viram seus olhos cheios de lágrimas. Não se confirma, até hoje, nenhuma das duas versões, mas se pode afirmar que aquela figura humana, da qual nunca se ouvira sequer uma palavra, deixou uma vaga tristeza na Vila do Capivara. A ambulância sumiu na extrema curva do caminho, levantando o pó da estrada. Durante muito tempo ainda parecia ecoar o coro dos meninos:
" Ah....Fião ! Fião ! óia o Fião... ”.
Seu Chico de Oliveira e a mulher educaram os Fiotes e eles se tornam doutores, formados na Capital. Foram batizados com os nomes dos pais adotivos.
Falou-se, na época, numa história de amor e adultério; alguns afirmavam que a mulher que deixara os meninos na estação seria a adúltera. Lá se vão mais de 50 anos, só restaram as versões.
A Vila do Capivara, Curato da Freguesia da Meia-Pataca, continuou imersa no seu cotidiano pacato, porém vazia do vulto sagrado do Fião.
Ah!! que viagem fazemos neste livro de folhas esparsas que o meu amigo Dr. Victor Hugo do Carmo nos remete. Tantos econcontros tivemos naquele Marapendi Club na Barra da Tijuca nas nossas peladas de fim de semana! Hoje descobrimos, que Cisneiros, local em qu nossa tia Maria Lobo, esposa do gerente do depósito do café, hoje IBC, funcionário que servia naquela localidade e onde, saíamos, nossa mãe, com 5 filhos, para a casa da irmã, esposa desse servidor, para passarmos as férias escolares.
ResponderExcluirPara nós, parecia uma eternidade a viagem, porque saíamos de Aímorés-MG, no Vale do Rio Doce, até Vitória-ES, para dormir e cedinho a baldeação para o trem da Leopoldina, até Carangola, para dormir e depois seguir até Cisneiros. Era um tal de vomitar e comer carvão, queimar roupa com as fagulhas e terminar a aventura com quase 3 dias de viagem.
Eu era uma criança mas me lembro ainda desses lugares pois eu mais parecia um pássaro na bicicleta naquelas redondezas. Eram as melhores férias escolares, pelo menos para mim, esses finais de anos que, muito me emocionam e, hoje,
ainda encontro minha tia, que sempre nos amou muito,e eu a ela, aí na Alzira Brandão, na Tijuca, com 95 anos.
Seus relatos, Victor, me fazem chorar.
Não me envorgonho disso!
Obrigado, companheiro.