Em nenhum momento a mídia brasileira considera a problemática que envolve a corrupção no país de maneira integral, ou seja, como um problema sistêmico. No Brasil a mídia tem historicamente um tratamento, em relação ao funcionamento das instituições, não como sendo estas instrumentos essenciais da democracia institucionalizada, mas algo que ela pode vulnerar em prol de interesses circunstanciais e ocasionais.
Tendo se apoderado de instrumentos poderosos de formação de opinião, por força da falta de regulação e democratização do setor, a nossa mídia tem sido politicamente partidária. Movida por interesses de facções e daqueles necessários à manutenção do “status quo” que lhes garante esse enorme poder que ela usa para atingir a própria estrutura do regime democrático. Esse trabalho é executado com a costumeira violência e sem o respeito mínimo às regras do direito, sob o falso manto da liberdade de expressão.
Muitas vezes, no passado, a mídia brasileira esteve envolvida em golpes de estado e com a ruptura do regime democrático, inclusive apoiando abertamente o autoritarismo e a supressão das liberdades democráticas na República.
Esses procedimentos golpistas da mídia recrudescem com a proximidade dos pleitos eleitorais nos quais ela adota aliados e inimigos, beneficiando aqueles e atacando estes pelos meios mais sórdidos de comunicação a seu dispor.
O atual surto de “combate à corrupção” desenvolvido pelas Revistas e pelos Jornalões, esgota-se na tentativa de afastar políticos do poder e estigmatizar a classe política perante a opinião pública. Alcançado este objetivo, limitado por sua natureza, as investigações sobre as denúncias de corrupção param, até, de serem noticiadas. Os denunciados passam a ser penalizados sem julgamento institucional, condenados pela imprensa. O serviço é concluído com êxito no interesse midiático é o que importa.
Como “combatente da corrupção” a mídia não propõe algo que possa minimizá-la institucionalmente. Exemplo disso é o apoio que sustenta em favor da manutenção do sistema político que ora se quer aperfeiçoar no legislativo. A mídia defende aquilo que é a maior fonte de corrupção, ou seja, o financiamento privado das campanhas eleitorais e, por conseqüência a manutenção da vinculação dos políticos com seus financiadores e o sistêmico Caixa 2, com o afastamento de outros setores da opinião pública.
Bom lembrar, para ressaltar o caráter partidário da mídia, que durante o governo anterior do PSDB, quando os seus interesses foram plenamente atendidos pelo poder, não vieram a público quaisquer “escândalos” de corrupção, embora tenha sido aquele triste período neoliberal o que mais corrompeu o processo político brasileiro após a Ditadura, até mesmo com comprometimento claro do legislativo com a tese da reeleição e o silencio, e mesmo o apoio, sobre as criminosas alienações do patrimônio público.
Este escriba transcreve abaixo um pequeno e sugestivo trecho de um texto da socióloga e jornalista Maria Inês Naciff, sobre o mesmo problema. Olhem só:
"O apoderamento da imprensa é ainda maior. Se, de um lado, a pauta expressa seu imenso poder sobre a política brasileira, ela não cumpre o papel de apontar soluções para o problema. Não existe intenção de melhorá-lo, de atacar as verdadeiras causas da corrupção. Apesar da imensa caça às bruxas movida pela mídia contra os governos, em nenhum momento essa sucessão de escândalos, reais ou não, incluíram seriamente a opinião pública num debate sobre a razão pela qual um sistema inteiro é apropriado pelo poder privado, inclusive e principalmente porque não se questiona o direito de apropriação do poder público pelo poder privado. A mídia tradicional não fez um debate sério sobre financiamento de campanha; não dá a importância devida à lei do colarinho branco; colocou a CPMF, que poderia ser um importante instrumento contra o dinheiro ilícito que inclusive financia campanhas eleitorais, no rol da campanha contra uma pretensa carga insuportável de impostos que o brasileiro paga.
Pode fazer isso por superficialidade no trato das informações, por falta de entendimento das causas da corrupção – mas qualquer boa intenção que porventura exista é anulada pelo fato de que é este o sistema que permite à imprensa capturar, para ela, parte do poder de instituições democráticas devidamente constituídas para isso".
Extraído da “Carta Maior”
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VHCarmo.
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