Algo mais é um conto extraído do livrinho de contos “Complexo do Alemão & Outros contos” deste humilde blogueiro.
Olhem só:
A VEDETE
A Praça
Tiradentes era o centro do lazer noturno do Rio de Janeiro naqueles idos dos
anos 40 do século passado e eu, vindo do interior profundo de Minas Gerais, era
espectador deslumbrado daquelas noites de
teatro, de
cabarés e da vida que fluíam, assim meio inocentes, aos meus desejos e sonhos
de jovem. No Teatro Carlos Gomes encenavam-se as revistas de Walter Costa,
Chianca Garcia e dos chamados reis da
noite.
Os maiôs cheios de brilhos das lantejoulas, de
arminhos, prateados, dourados, azuis, vermelhos, desenhando os corpos graciosos
e sensuais das vedetes sob os holofotes de luzes cambiantes; pernas e coxas
desenhadas em contornos sensuais. As piruetas e danças com os bailarinos e
palhaços;
era tudo
muito festivo.
Desejo
despertado e ilusões desfiladas nos sonhos das noites de fins de semana. Ali
Dalila Escarlete desfilava e, entre todas, ela é que merecia a minha admiração
especial e alimentava os meus desejos não só românticos, mas sensuais, devo
confessar. O acaso fez aproximar-me dela. O acaso, do qual já nem me lembro,
quando e como se deu. O importante, agora que escrevo estas linhas, é lembrar
que um dia nos encontramos, quando ela saía dos camarins pelos fundos do velho
teatro. Era talvez mais bela, aos meus sentidos, sem a maquiagem, as luzes e o brilho
do palco. Um sorriso nervoso, um murmúrio de palavras desencontradas e a sua
admiração da minha ousadia por aproximar-me. Os olhos de Dalila Escarlete, de
um profundo negror, tinham um brilho que iluminava as suas feições morenas e os
seus cabelos castanhos caiam ligeiramente sobre os ombros, esvoaçando. O
sorriso dela era, a um tempo, ingênuo e maldoso; o seu corpo de vedete buscava,
e quase atingia, a perfeição.
Eu não
perdia um espetáculo sequer em
que Dalila figurava, dançando, em requebros sensuais, as
marchas e sambas excitantes das revistas da Praça Tiradentes. Terminados os
espetáculos, lá ia eu esperá-la ao sair dos camarins. Era um tonto de paixão
juvenil que ela esnobava com aquele sorriso cheio de negaças e fingidas esperanças.
Durante
muito tempo eu abordava Dalila ao fim dos espetáculos, mas a aproximação,
desejada, não se deu. Ela, mulher inteira e madura em seus 22 anos e eu um
jovem ingênuo aos 18; não tinha mesmo chance.
Depois,
como não se apresentasse mais nos espetáculos do Carlos Gomes, perdi Escarlete
de vista, embora ela permanecesse na minha mente e nos meus desejos.
Procurei a vedete por onde pensei poder encontrá-la; em outros
palcos e na noite de Copacabana que então começava a abrir-se à boêmia carioca;
e nada. Soube, depois, por um dos porteiros do teatro, que a musa tinha ido
exibir-se nos palcos de São Paulo e se casado com um homem rico. A paixão
frustrada que se instalara em mim se desvaneceu aos poucos.
Nada como
o tempo para apagar paixões e a minha, inexoravelmente, passou, e a lembrança
da Dalila Escarlete se esfumou.
O tempo,
do qual ora falo, se contava, então, em mais de trinta anos. A minha juventude
já se fora. A lida diária e a luta pela vida enrugaram-me o rosto e pratearam
os meus poucos cabelos.
Eu
passava, então,quase diariamente, pelo grande saguão do Palácio da Educação, me
dirigindo ao trabalho. Aquele edifício,
erguido nos moldes da arte moderna, por Le Corbusier assessorado pelo imortal
Oscar Niemeyer, fora pioneiro daquela corrente arquitetônica na cidade. Os
ladrilhos de Portinari,cobrindo as paredes em doces curvas, enchiam-me os olhos
e a mente e eu fazia questão de por ali passar para me revitalizar com aquela
beleza e a vista dos jardins, em meandros, de Burle Marx, redesenhando as
fontes e passarelas de pedras portuguesas.
Numa manhã
de primavera dessas em que a luminosidade da cidade do Rio se mostra
cristalina, vi, sentada em um dos bancos do jardim do Palácio, uma mulher já
velha. Aproximei-me e, do recôndito de minha cansada memória, reconheci aquela
figura: era Dalila Escarlete. Fixou em mim aqueles mesmos olhos escuros, mas já
sem o brilho de outrora. Seus cabelos castanhos empastados de alguma
brilhantina vagabunda já não mais esvoaçavam. O seu semblante, cravado de uma profunda
tristeza, denotava a alienação em que vivia. Olhou-me, apertando os olhos como
que tentando estimular a memória, depois sorriu o riso dos dementes. Seu corpo
descarnado, vestido de trapos de estampados colorido, já não tendia à perfeição
das noites do teatro. As belas pernas que rodopiavam nos palcos da minha
juventude estriavam-se de varizes azuis. Foi muito triste aquela visão da
antiga diva. Ao lado, no banco em que se sentava, algum dinheiro se espalhava,
lançado por transeuntes;eram moedas e notas que pareciam não interessar a ela.
Dalila continuava a apertar os olhos negros a mirar-me e a sorrir o riso dos alienados.
Não me reconheceu e nem podia, pois, além do tempo, fugira-lhe a mente.
Confesso
aos que me lêem que uma profunda tristeza me invadiu por inteiro. Não sabia o
que fazer. Pensei juntar, ao dinheiro espalhado, mais algum, porém não o fiz.
Instintivamente sentei-me ao lado de Dalila Escarlete. Foi então que notei, pendente de seu pescoço por
um fio, sobre o colo murcho, havia um pequeno envelope plástico transparente e
ali se podia ler:
“Quem encontrar esta senhora perdida,
comunique, por favor, ao
Retiro dos Artistas.”
Saí
caminhando, meio tonto, pela Rua Araújo Porto-Alegre e no primeiro telefone
público, que encontrei, liguei para o Retiro cujo número também constava do
plástico.
Fiquei ali
por longo tempo ao lado da Dalila até que chegou a ambulância que a levaria.
Ainda sorrindo, com aquele riso triste e alienado, foi conduzida delicadamente
ao veículo por duas enfermeiras, vestidas de branco imaculado; o dinheiro se
espalhou sobre as pedras portuguesas.
Antes de
entrar na ambulância, Dalila Escarlete virou-se em minha direção, apertando
ainda os olhos negros desbotados, sorriu, como que se despedindo. Não consegui reter algumas lágrimas.
________________________
VHCarmo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário