Do "Observatório da Imprensa" este blogueiro traz o texto
abaixo que é sugestivo quanto a ofensiva da imprensa e da mídia em geral para
forçar uma situação de pânico envolvendo uma possível aceleração da inflação
que os números da economia desmentem. É difícil entender até onde vai a irresponsabilidade desse meios
e mesmo a sua falta de patriotismo.
Olhem só:
JORNALISMO ECONÔMICO
Ao perdedor, os
tomates
Por Luciano Martins Costa em 13/04/2013 na edição 741
Comentário para o programa radiofônico do Observatório,
12/4/2013
Os principais jornais de circulação nacional demonstram um entusiasmo
quase triunfal pelas notícias sobre aumentos pontuais dos preços de certos
gêneros alimentícios. Os índices anunciados no último mês realmente mostram um
descompasso nos valores de alguns produtos, com especial destaque para o
tomate, que se tornou até mesmo tema de anedotas nas redes sociais.
O movimento de alta produz sua consequência natural em qualquer
economia: a queda nas vendas do varejo. A imprensa adora citar aquela frase
famosa do estrategista do ex-presidente americano Bill Clinton, James Carville,
anotada num quadro da sede da campanha eleitoral de 1992: “É a economia,
estúpido”.
Na sexta-feira (12/04), porém, a
reação natural dos consumidores faz os editores se esquecerem da lição contida
na frase, justamente para fazer uso político de seu significado. O Globo e
a Folha de S.Paulo pareceram ter combinado. Com variação sutil, os
dois diários anunciam em suas manchetes: “Alta de alimentos derruba vendas
de supermercados”, disse a Folha; “Alta dos preços já derruba vendas
em supermercados”, anunciou o Globo.
A análise da intencionalidade de uma
frase, no caso das manchetes de jornais, virou brincadeira de criança, tamanha
a falta de sutileza do texto jornalístico. Observem a leitora e o leitor, por
exemplo, o uso do verbo “derrubar” em contexto que induz a certa dramaticidade,
e, no caso do Globo, a inserção do advérbio “já”, de intensidade,
que denota uma suposta antecipação da queda nas vendas do varejo, apresentada
como fato incontornável.
O Estado de S.Paulo, que
apesar dos pesares ainda preserva um texto mais elaborado, principalmente no
noticiário econômico e no internacional, colocou o tema como anexo da manchete
sobre custo da energia, mas repete o verbo impactante: “Alta de preços derruba vendas
no varejo”.
O Valor Econômico, o
principal jornal brasileiro de economia e negócios, posicionou o tema em
contexto intermediário na primeira página, preferindo anunciar na manchete que
o governo vai mudar regra de leilões no setor de energia. De qualquer modo, o
jornal especializado faz uma abordagem mais serena da questão dos preços e, até
por sua especialização, oferece uma leitura menos emocional dos fatos
econômicos, anotando que a inflação deve desacelerar dos 0,47% em março para
0,45% em abril, caindo para 0,32% em maio.
A oferta e a procura
Por que, então, a histeria nos jornais chamados de genéricos, que
compõem o “núcleo duro” da imprensa tradicional? Cada leitor dará uma sentença,
conforme suas crenças e sua ideologia, mas podem-se fazer apostas baseadas na
análise do discurso jornalístico.
Os três diários se concentram no fato de que houve uma retração anual
nas vendas em fevereiro deste ano, comparando com o mesmo mês de 2012, mas
destacam também a queda de 0,4% no comparativo mensal, entre janeiro e
fevereiro deste ano, embora o bom jornalismo recomende evitar ponderações entre
dados de contextos diferentes, que são influenciados por questões como
sazonalidade, férias etc.
Seria aborrecido, complicado e inócuo fazer a releitura crítica de todos
os textos, mas o leitor e a leitora atentos podem notar, em detalhes e no
quadro geral, que a mídia tradicional parece festejar os números negativos da
economia.
A imprensa brasileira, literalmente,
“pisa no tomate”. Difícil é afirmar ou justificar suas razões. Mas há
ocorrências que extrapolam até mesmo o senso básico, como no caso da pequena
reportagem publicada pelo Estadão, na qual o repórter, a propósito
de consolidar a ideia de uma carestia, apresenta o seguinte título: “Oferecer
churrasco? Só para quem pode” – e segue uma tentativa de quantificar quão mais
caro ficaria fazer um típico almoço brasileiro nestes tempos.
A reportagem, quase em tom de blague, começa afirmando que, “tirando a
carne, que, em 12 meses, subiu 3,1%, bem menos que os 6,6% da inflação
oficial...” e por aí vai. Ora, se o item predominante no churrasco é a carne, e
o preço da carne subiu bem menos que a inflação, a reportagem morreu aí: na
verdade, o churrasco está mais barato hoje do que no ano passado – os demais
itens alinhados no texto, como o tomate, a farinha, o vinagre e outros
ingredientes secundários, dos quais se usa pouca quantidade no churrasco,
tiveram aumento de preços, mas seu peso no custo do almoço será relativo. Ou
alguém pensou em fazer churrasco de tomate?
Pode-se, então, concluir que o interesse principal do conjunto
noticioso, desde a manchete até essa reportagem, está viciado pela intenção de
origem: apostar na deterioração da economia brasileira.
Aliás, a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e
Alimentação) avisa que os preços de alimentos subiram no mês passado em todo o
mundo, mais que o dobro do que no Brasil, por conta de problemas climáticos,
mas a tendência é melhorar ao longo deste ano.
Além disso, é de se perguntar o que há de tão insólito: se as mudanças
climáticas afetam a agricultura, ou se a indústria de agrotóxicos quer vender
novas drogas, se não houve investimento, ou seja lá qual for a causa do aumento
de preços do tomate, trata-se da velha lei da oferta e da procura. Numa sociedade
saudável, a reação natural é essa mesmo: ficou caro, não se compra.
Cai-se, então, na tentação de repetir a frase que a imprensa adora: “É a
economia, estúpido!”
__________________________________________
VHCarmo.
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