quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Um conto que relembra outro ...

                             Quem já leu o meu livrinho de contos (Complexo do Alemão e outros contos) há de se lembrar do “Meu afilhado”, mendigo que pedia esmolas ao pé da estátua levantada na Cinelândia em comemoração da independência. Chamava-se Roberto e viera, aos trancos e barrancos de Varginha –MG de onde fora expulso de um pequeno sítio no qual cultivava uma rocinha, para se abandonar à mendicância no Centro do Rio. Conservava, apesar de tudo, uma certa dignidade e revelava um singular conhecimento das coisas que aconteciam em volta dele, porém reivindicava o seu direto inalienável  de abandonar-se àquela miséria. Embora tenha sido um texto ficcional o personagem era real bem como a “estória” que aí vai neste conto  abaixo:
                                                                 
                                                                    A gente da rua.
                                                                           -E o meu afilhado ?

                         O Comprido estava lá. O meu afilhado já não aparecia fazia tempo. A mulher esquálida, que o Roberto apontava sempre como sua companheira, às vezes aparecia. Relutava em perguntar-lhes. Intimidade com mendigo é um negócio difícil. Não por eles; por nós mesmos. Eles que me dissessem o que havia com ele que, afinal, assumira comigo uma certa simpatia recíproca.
                         A mulherzinha mulata, olho de coruja, que faz intermináveis abdominais e parece ter coluna de seda, estava lá todo o dia ao cair da tarde, sempre no mesmo lugar, sentada sobre a grade do buraco do Metrô. Já lhes contei que, estranhamente, ela ora pedia, ora recusava esmola. Só não deixava de me olhar fixamente com aqueles olhos caídos e embaçados. Ela também não me disse nada.
                         Era imperativo perguntar pelo meu afilhado; me faltava coragem. A última vez que eu o vira estava semimorto, ferido no sobrolho; a boca dilacerada, espumando de cachaça. Não teve ânimo sequer de esboçar um riso. A catinga emanada do corpo escuro tornara-se mais insuportável, como se isto fosse possível.
                      - “Você está bem Roberto?

                        -“Que nada meu padrinho, tô fudido!. Fiquei uns dez dias, não sei bem quantos, internado no Souza Aguiar. Levei um tombo; foi a cachaça que me empurrou”. Falou e riu, seu sorriso desdentado.

                          -Tá melhor agora, cara?

“ Sei lá, padrinho; já não tenho forças pra pedir esmola, nem apetite pra comer”.

                          -Te cuida,  falei e fui andando, descendo as escadarias do Metrô, meio desconsertado.

                        Afinal, num belo dia  criei coragem. O Comprido estendia a mão à beira da calçada, junto da estátua do centenário da Independência. O cheiro de mijo, subia-lhe pelo corpo magro e penetrava pelo meu nariz inflado. Saquei uma moeda de um real e, enquanto a colocava na mão dele, fiz a pergunta havia tanto tempo engasgada:

                         -“E o Roberto, Comprido ?

                           “O seu afilhado?

                             - “É.. é.

                            “Ele tava bebão e tomou um tombo na rua, ali perto da Biblioteca; bateu com a cabeça no meio-fio e morreu, dois dias depois, no Souza Aguiar; foi recolhido e jogado na vala comum no Caju; este é o destino da gente que vive nas ruas”. Falava e ria: “já até fui lá botar uma vela no meio das outras na intenção dele”.
                            A morte do companheiro de miséria parecia ser, para o Comprido uma coisa corriqueira; não lhe vi nos olhos, nem na cara macerada qualquer sinal de emoção. E emendou:

                   - “É meu companheiro, seu afilhado se foi!”.

                           Até que não sou   lá muito sentimental,  mas não pude conter a emoção e o Comprido notou. Virou-se pra mim:
                  -“Meu amigo, não chore por ele, pode atrapalhar a subida da sua alma pro céu”.
                                         E tornou a rir seu riso sem dentes.

VHCarmo - (outubro de 2007).

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